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Artigo

Economia Política: a lente do COMPASSO

O que se perdeu quando a economia deixou de ser política, por que a pergunta do excedente sempre retorna, e de onde o COMPASSO olha o jogo.

Por Paulo Lira6 de agosto de 20265 min de leitura

Quando a economia deixou de ser política

O campo que hoje chamamos de economia nasceu com outro nome: economia política. Para os fundadores da disciplina, entender a riqueza das nações era entender como ela é produzida, como se distribui entre as classes e o que o Estado e o poder têm a ver com isso. Economia e política não eram duas matérias separadas. Eram duas faces do mesmo processo.

Na virada para o século XX, o campo mudou de nome e, com o nome, de pergunta. No lugar da riqueza e de sua repartição, a escolha individual e a alocação de recursos escassos, formalizadas em matemática. A história saiu do quadro. As classes saíram do quadro. O poder saiu do quadro.

O que se perdeu nessa depuração foi justamente a pergunta central: a do excedente. Toda sociedade produz mais do que consome para se reproduzir. Quem se apropria dessa diferença, por quais instrumentos e sob quais regras, e quem escreve as regras: eis a questão que a tradição original colocava e que a disciplina purificada deixou de formular.

A pergunta que sempre retorna

A realidade, entretanto, nunca deixou de se mover por seus termos fundacionais. As guerras mundiais, a industrialização das periferias, a construção e a ruína das ordens monetárias: nenhum desses processos se deixa explicar como problema de alocação. Cada um deles foi um capítulo da disputa pelo excedente, travada ao mesmo tempo entre classes, dentro das sociedades, e entre Estados, no sistema internacional.

E a cada vez que a realidade se impôs, a perspectiva original retornou. O caso mais nítido é o dos anos 1970. O arranjo monetário do pós-guerra ruiu, o petróleo virou instrumento de pressão, e a inflação passou a conviver com a estagnação, combinação que os modelos vigentes consideravam impossível. Da crise renasceu um campo inteiro de estudos dedicado a reatar o que a depuração havia separado, voltando a perguntar quem ganha, quem paga e quem manda na ordem mundial.

A convidada das crises

Há nisso uma regularidade quase cômica. A economia dos indivíduos e dos preços explica o mundo com elegância enquanto o mundo se mantém calmo. Ao primeiro abalo sério, chama-se de volta a velha economia política para explicar o que os modelos não previram. Passado o susto, arquiva-se a convidada e retoma-se o manual, até a crise seguinte.

Ocorre que os abalos são cada vez mais frequentes, e os intervalos de calmaria, cada vez mais curtos. Política industrial voltou ao vocabulário das grandes potências. Controles de exportação redesenham cadeias produtivas. A tecnologia virou assunto de segurança nacional, a energia virou arma, a moeda virou instrumento de coerção. Não é que a economia tenha se politizado agora: a aparência de separação entre as duas esferas é que deixou de se sustentar à vista de todos. Nesse mundo, a visão que prometia mercados autorregulados e Estado mínimo vai se convertendo em lenda, com público cada vez mais restrito aos influencers do mundo financeiro e aos economistas formados por manuais.

Quatro compromissos de método

Ler o mundo pela lente da economia política significa, portanto, três compromissos de método. Primeiro, a totalidade: economia, política e poder são momentos de um mesmo movimento, e isolá-los é perder o fenômeno. Segundo, a história: nenhuma conjuntura se explica por si mesma; todo presente é um momento de processos longos que o antecedem e o atravessam. Terceiro, o conflito: a disputa não é falha do sistema a ser corrigida, é o modo mesmo pelo qual o sistema se move.

Há ainda um quarto compromisso, que diz respeito não ao que se olha, mas de onde se olha. Os mesmos processos ganham sentidos distintos vistos do centro ou da periferia do sistema. Um controle de exportação que no centro se discute como estratégia, na periferia se vive como determinação. Olhar desde o Brasil não é um limite da análise: é a sua condição de relevância. Diagnósticos importados respondem às perguntas de quem os formulou, e a experiência brasileira conhece bem o custo de tomar emprestadas as perguntas dos outros.

De onde olhamos, e para quem

É esse o lugar do COMPASSO. Analisamos a economia e a política mundiais com a disputa pelo excedente como fio condutor, a história como método e o Brasil como posição de observação. Não por nacionalismo de ocasião, mas por rigor: só compreende o jogo global quem sabe o lugar que nele ocupa. E só formula projeto próprio quem compreende o jogo.

E porque o jogo não se joga apenas entre Estados e grandes empresas, essa leitura não é um luxo de especialistas. O mesmo movimento que reorganiza o sistema mundial reorganiza a vida de cada um: a profissão que se transforma, a poupança que perde chão, o trabalho que muda de natureza, o voto que decide mais do que parece. Por isso o COMPASSO traduz essa lente em análises, relatórios e cursos. Para que cada pessoa possa ler a própria posição no jogo e desenhar, com mais clareza, suas estratégias profissionais, pessoais e como cidadã.

No jogo do excedente, ninguém assiste de fora.

As opiniões externadas nos artigos são de responsabilidade de seu autor ou de sua autora.