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Artigo

A Economia Política da Inteligência Artificial: quando as máquinas de calcular passaram ao centro da acumulação

Quando e como a inteligência artificial passou ao centro da acumulação de capital global, por que a velocidade é o dado propriamente novo, e o que o método da economia política faz com isso.

Por Paulo Lira10 de agosto de 20264 min de leitura

Toda grande transformação do capitalismo se organizou em torno de um complexo tecnológico dominante. A máquina a vapor e a ferrovia no século XIX, a eletricidade e o aço na virada para o século XX, o petróleo e o automóvel no pós-guerra, a microeletrônica a partir dos anos 1970. Em cada um desses momentos, a tecnologia de ponta não foi um setor entre outros: foi o eixo em torno do qual se reorganizaram o investimento, o trabalho e o próprio mapa do poder mundial.

É desse ponto de vista que propomos olhar a inteligência artificial. A pergunta de que partimos aqui não é o que os novos modelos fazem, mas quando e como eles passaram ao centro da acumulação de capital global. Essa passagem tem história, e recuperá-la é o primeiro passo do método.

Filha do Estado, criada pelas plataformas

A IA não nasceu no mercado. Nasceu de décadas de investimento público em pesquisa, da corrida militar do pós-guerra aos laboratórios universitários que atravessaram os longos invernos da área. O que a transformou em força econômica foi o encontro dessa acumulação científica com a base material construída pela economia de plataformas nos anos 2000 e 2010: massas inéditas de dados, capacidade computacional concentrada e lucros extraordinários retidos por um punhado de empresas.

Quando a técnica virou o objeto

Até então, a IA era uma técnica a serviço do modelo de negócio das plataformas. Ordenava buscas, recomendava produtos, vendia atenção. O salto qualitativo se dá quando essa relação se inverte. A partir da popularização dos grandes modelos, o excedente acumulado na era das plataformas passa a ser vertido em capital fixo numa escala que já não descreve uma aposta setorial: centros de dados, contratos de energia de longo prazo, encomendas de semicondutores que reorganizam cadeias produtivas inteiras. O investimento em IA torna-se componente relevante do próprio crescimento agregado da maior economia do mundo. A técnica que servia à acumulação converte-se no objeto central dela.

A forma é velha, a velocidade não

Nada disso é inédito na forma. A ferrovia também absorveu o capital de sua época, também produziu euforia financeira, também refez Estados e territórios. O inédito está na velocidade. A eletricidade levou cerca de quatro décadas para reorganizar o chão de fábrica; a difusão dos grandes modelos de linguagem se mede em meses. Entre a demonstração técnica e a pressão concreta sobre profissões, mercados e orçamentos públicos, o intervalo encolheu como nunca antes na história do capitalismo.

Essa compressão do tempo é o dado propriamente novo, e é ela que precisamos levar a sério. As transformações anteriores deram às sociedades gerações para processar seus efeitos, criar instituições, negociar a repartição dos ganhos. A transformação atual chega antes das categorias que deveriam interpretá-la. Seus efeitos sobre as relações de trabalho já se fazem sentir na barganha cotidiana, antes de qualquer substituição em massa. Suas pressões políticas já reorganizam prioridades nacionais, dos controles de exportação às políticas industriais, antes que os países da periferia tenham sequer formulado a pergunta sobre o próprio lugar nesse processo.

Contra o desnorteamento, método

Diante de um movimento que se acelera, a tentação é reagir a cada novidade como um evento isolado. Um modelo novo, uma demissão em massa, um anúncio bilionário, um decreto. Consumida aos pedaços, a transformação desnorteia. E o desnorteamento não é politicamente neutro: quem não tem método para ler o movimento termina determinado por ele, tomando como fatalidade técnica aquilo que é, em essência, disputa pelo excedente.

Olhar a IA pela lente da economia política, como argumentamos no texto que funda esta página, significa ler cada episódio como momento de um processo único: a reorganização da acumulação global em torno de um novo complexo tecnológico, com a velocidade como sua marca distintiva. As disputas entre os Estados, a relação entre as grandes empresas e suas bandeiras nacionais, a corrida por energia e minerais, a pressão sobre o mundo do trabalho: faces do mesmo movimento, que precisamos compreender enquanto ele se faz. É condição para não sermos apenas arrastados por ele.

As opiniões externadas nos artigos são de responsabilidade de seu autor ou de sua autora.