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Arquitetura de segurança · Análise

A Indonésia aparece a leste de Taiwan, e cada lado lê um mapa

O primeiro exercício naval China-Indonésia em águas a leste de Taiwan é rotina em Jacarta, cerco em Taipé e vitória em Pequim. A leitura cruzada do dia passa ainda por Ormuz, Kyiv, Bogotá e Lusaka.

Por COMPASSO12 de agosto de 20269 min de leituraTabuleiro: Arquitetura de segurança

Leituras

  1. Quando o maior país não alinhado do Sudeste Asiático navega com a marinha chinesa a leste de Taiwan, o preço da neutralidade sobe para todos os médios do sistema, inclusive o Brasil.
  2. O Irã condicionou a reabertura de Ormuz ao fim da guerra e à liberação de fundos bloqueados, e o barril entre 88 e 92 dólares é o pedágio diário dessa aposta.
  3. A Venezuela administrada sob supervisão de emissários do Tesouro americano virou modelo explícito, e é exatamente esse modelo que a série sobre a hipótese Brasil acompanha.

Américas

O terremoto de magnitude 7,4 que atingiu o oeste da Colômbia na segunda-feira virou, em 48 horas, um evento geopolítico. Com ao menos 130 mortos e milhares de desaparecidos segundo o acompanhamento da Univision, o governo decretou desastre nacional e a chancelaria ativou nesta quarta os canais para receber ajuda externa, que o próprio governo estima em mais de 1,3 bilhão de dólares de cooperação, com 12 países mobilizados. Quem coordena a resposta é um presidente empossado há cinco dias: Abelardo de la Espriella, que assumiu em Cali consolidando o giro de Bogotá em direção a Washington. Na Venezuela, a tutela ficou explícita: emissários do Tesouro e do Departamento de Estado americanos se reuniram em Caracas com a presidente interina Delcy Rodríguez para revisar a gestão econômica e energética do país, segundo o noticiário venezuelano. O Departamento de Estado chama o processo de transição democrática institucional; Delcy, falando como o governo interino, diz que a Venezuela terá eleições quando estiver preparada. Entre os dois enquadramentos mora a pergunta que interessa ao leitor brasileiro, e que tem acompanhamento diário no placar da hipótese Brasil.

Ásia oriental

O fato. Na tarde de terça-feira, o Ministério da Defesa da China anunciou o primeiro exercício naval conjunto com a Indonésia em águas a leste de Taiwan, marcado para meados de agosto, pareando a fragata Honghe, do tipo 054A, com a fragata indonésia KRI I Gusti Ngurah Rai, com foco declarado em comunicações e reabastecimento em marcha. Na noite de terça, o Conselho de Assuntos Continentais de Taipé condenou o anúncio; nesta quarta, a marinha da Indonésia veio a público minimizar. Nada disso é controverso: as três falas estão registradas pela agência oficial taiwanesa CNA, pela estatal chinesa CGTN e pela Reuters.

As margens. A CGTN, a China falando, descreve a manobra como cooperação para a paz e a estabilidade regional. Taipé leu cerco: para o governo taiwanês, trata-se de um ato perigoso de minar o status quo, uma tentativa de criar a falsa impressão de jurisdição chinesa sobre águas que banham o leste da ilha, justamente o flanco por onde chegaria socorro externo numa crise. A imprensa ocidental leu alarme estratégico: a Reuters destacou a condenação taiwanesa já no título. E Jacarta, pela voz de sua marinha, desdramatizou: exercícios rotineiros, sem relação com combate.

O pomo da discórdia. A divergência não é sobre o que acontecerá no mar, é sobre o que o mar significa. Para Pequim, cada exercício com um parceiro novo normaliza a presença chinesa em mais um pedaço do Pacífico. Para Taipé, a normalização é o ataque: quem se acostuma a ver a bandeira chinesa a leste da ilha aceita, sem perceber, que aquele mar tem dono. Para a Indonésia, fundadora do movimento dos não alinhados, o exercício é a afirmação de que navegar com todos é a própria neutralidade; dentro do país, porém, a escolha do teatro incomoda, porque há distância entre treinar com a China e treinar com a China ali. O dia ainda somou um lembrete de fundo: a Coreia do Norte lançou de manhã seu 11º míssil balístico do ano, que voou mais de 700 quilômetros rumo ao Mar do Leste segundo o estado-maior sul-coreano, às vésperas do exercício anual entre Seul e Washington. E Taiwan seguiu ensaiando a própria resiliência: a fase norte do exercício que reduz deliberadamente os dados móveis ocorre entre hoje e amanhã, com defesa aérea em Taipé na quinta.

Sul e Sudeste da Ásia

A margem indonésia do lance acima é a notícia da sub-região: o país-âncora da ASEAN aceitou o convite chinês e agora administra o custo diplomático da geografia escolhida. No Paquistão, o primeiro-ministro Shehbaz Sharif admitiu nesta quarta, ao lançar programas de emprego juvenil em Islamabad, que o país ainda está longe de ser um Estado de bem-estar social, um registro de autocrítica publicado pelo Dawn, o maior diário em inglês do país. Em Mianmar, a rede de mídia étnica BNI documentou na terça mais um dia de guerra civil somada a enchentes: ataque aéreo da junta contra deslocados, execuções no polo de jade de Hpakant e mais de 1.700 pessoas ilhadas.

Golfo e Oriente Médio

O Estreito de Ormuz completou mais um dia fechado, e a negociação para reabri-lo travou. O chefe do Conselho Supremo de Segurança Nacional do Irã, Mohsen Rezaei, condicionou nesta quarta a reabertura plena ao fim do que chamou de guerra americana contra o Irã e seus aliados e à liberação de fundos iranianos bloqueados, em declaração distribuída pela agência estatal IRNA, o Irã falando. Uma fonte iraniana disse à Reuters que não há nada a estender no cessar-fogo. Do outro lado, o presidente americano repete que tem controle total do estreito, enquadramento que a Fox News amplifica como intransigência iraniana. O mercado precifica o impasse: o Brent oscilou entre cerca de 88 e 92 dólares ao longo da manhã, segundo cotações da CNBC e da Fortune, e o monitoramento independente de tráfego registrou 8 trânsitos no estreito num dia recente contra a média histórica de 73. Em Gaza, Israel fez nesta quarta seu primeiro ataque aéreo em mais de uma semana, contra um comandante do Hamas em Beit Lahiya, segundo o Times of Israel, em meio à pressão americana por um acordo que o próprio governo israelense resiste a aceitar.

Europa e o espaço pós-soviético

A Ucrânia entregou aos negociadores americanos suas propostas para encerrar a guerra, confirmou o presidente Volodymyr Zelensky, enquanto a Rússia respondia no vocabulário que conhece: nas últimas 24 horas, mísseis balísticos e 138 drones deixaram 8 mortos e 57 feridos em várias cidades, e um ataque a Zaporíjia com mísseis, segundo Kyiv, de fabricação norte-coreana matou outras 7 pessoas, conforme o registro diário do Kyiv Independent. Os números de campo de batalha de cada lado seguem sendo alegações de parte: Moscou fala em cerco se fechando na região de Kharkiv, Kyiv contabiliza 745 quilômetros quadrados retomados desde janeiro num único setor. Fora do front, o dado que mede o estrangulamento: a Rússia começou a importar gasolina da Índia pela primeira vez, consequência dos ataques ucranianos a refinarias somados às sanções.

África

A Zâmbia vota amanhã, e a última terça de campanha mostrou o contraste de enquadramentos. O presidente Hakainde Hichilema, candidato ao segundo e último mandato, encerrou a campanha em Lusaka pedindo voto sobre a plataforma de entrega econômica: a inflação caiu de 24,6% em 2021 para 6,5% em junho, segundo os dados oficiais citados pela imprensa de negócios da região. A leitura de Londres é outra: para a Chatham House, o que está em jogo é a reputação democrática do país, não a inflação. No Sudão, o Sudan Tribune reportou, citando oficiais militares, a chegada de blindados e drones paquistaneses ao exército, dentro de um pacote de defesa estimado em 1,5 bilhão de dólares, enquanto a milícia Forças de Apoio Rápido, a RSF, aceita uma trégua humanitária de três meses mas rejeita abrir mão das posições conquistadas: humanitarismo declaratório com o território no bolso.

Os impactos por aqui

Três fios do dia chegam ao Brasil. O petróleo entre 88 e 92 dólares é inflação importada batendo na porta do banco central de um país que acabou de comemorar um IPCA comportado. O exercício da Indonésia é um recado sobre o custo crescente da neutralidade: o Brasil pratica há décadas a mesma equidistância que Jacarta agora testa no limite, e o precedente de um não alinhado pagando preço diplomático por escolher o teatro errado interessa diretamente ao Itamaraty. E a vizinhança sob administração assistida, de Caracas a Bogotá, é o tabuleiro onde a determinação americana ensaia os instrumentos cuja eventual aplicação ao Brasil esta casa acompanha diariamente.

Entenda o tabuleiro

A Ásia oriental organiza sua disputa em torno de uma geografia que não muda: a primeira cadeia de ilhas, o colar que vai do Japão a Bornéu passando por Taiwan e Filipinas, separa a marinha chinesa do oceano aberto. Há décadas a China trabalha para dissolver esse colar não por conquista, mas por normalização: cada exercício, cada patrulha, cada parceiro novo que aceita navegar junto empurra a linha do habitual um pouco mais para leste. A resposta americana histórica foi transformar a cadeia de ilhas em aliados equipados. A novidade deste agosto é o método aplicado a um não alinhado: se até a Indonésia navega com Pequim a leste de Taiwan, o habitual já mudou de lugar. É por isso que Taipé grita enquanto Jacarta boceja: no longo prazo desse tabuleiro, quem define o que é rotina define quem manda.

Fontes

Os outros lances do dia: A trégua vale para as tarifas, não para a ciência, A mineradora de bitcoin vira locadora da IA por vinte anos, O dia em que a eleição virou preço de tela, A hipótese Brasil: a coerção vai à OMC, e o risco vai à tela.

Toda análise do COMPASSO responde às mesmas cinco perguntas, sempre na mesma ordem: qual excedente está em disputa, quem disputa, que regras definem como se ganha, quem captura a maior fatia e onde você está nesse jogo. Conheça o método.