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Comércio global · Análise

O dia em que a eleição virou preço de tela

O rebaixamento do JPMorgan derrubou a bolsa ao pior fechamento desde janeiro, e o governo respondeu ao tarifaço com um plano de 210 milhões de reais. Outubro já negocia em tela.

Por COMPASSO12 de agosto de 20264 min de leituraTabuleiro: Comércio global

Leituras

  1. Quando um banco americano rebaixa ações brasileiras citando volatilidade eleitoral, a eleição de outubro deixa de ser cenário e vira preço.
  2. O plano de 210 milhões de reais para diversificar mercados admite, na prática, que o tarifaço americano veio para durar além do ciclo eleitoral.
  3. Entre a serenidade pedida pela ata do Copom e o dólar de volta ao patamar de 5,17 reais, o Banco Central herda um risco que não controla: o político.

O rebaixamento e o tombo

A terça-feira terminou com o Ibovespa em queda de 2,50%, aos 167.875 pontos, o pior fechamento desde 20 de janeiro, e o dólar em alta de 0,99%, a 5,1606 reais, segundo o registro da Bloomberg Línea. O gatilho não foi um dado doméstico: foi o JPMorgan rebaixando as ações brasileiras de compra para neutro, com a volatilidade eleitoral como razão declarada para ficar de fora dos ativos do país. Nesta quarta o pregão tentou se reerguer, abriu em leve alta e devolveu: por volta das 11h30 o índice recuava 0,18%, aos 167.617 pontos, com o dólar rondando 5,17 reais, conforme o acompanhamento em tempo real do Money Times. O alívio do dia veio de fora: a inflação ao consumidor americana de julho desacelerou para 3,4% em doze meses, segundo o Bureau of Labor Statistics, o que reduz a pressão sobre os juros globais.

A resposta de 210 milhões

Enquanto a tela piscava, o governo lançou nesta quarta o plano de diversificação de exportações para as empresas atingidas pelo tarifaço americano, com 210 milhões de reais em investimento, segundo a agência lusófona Plataforma Media. O tamanho do problema que o plano enfrenta foi dimensionado pelos estudos do próprio empresariado citados na cobertura: entre 7,4 e 11 bilhões de dólares de impacto, o equivalente a 18% a 29% das vendas aos Estados Unidos. Pelos números do Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços, 2,4 mil empresas foram atingidas e a fatia americana nas exportações brasileiras já caiu de 12,1% para 9,4% neste ano. No front diplomático, o movimento da semana ganhou peso: os Estados Unidos aceitaram na segunda-feira o pedido de consultas do Brasil na Organização Mundial do Comércio contra as sobretaxas, e a China pediu para participar como terceira parte, segundo o Poder360. A fase de consultas dura até 60 dias, ou seja, desemboca praticamente na data do primeiro turno.

Onde você está nesse lance

Se você vive de salário, o dia trouxe um lembrete e um consolo. O lembrete: o dólar a 5,17 reais chega ao preço do trigo, do remédio e do combustível antes de chegar ao noticiário eleitoral. O consolo veio do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística, o IBGE, que mostrou nesta quarta o setor de serviços estável em junho e acumulando alta de 2,6% em doze meses: a economia real, por ora, segue andando enquanto a financeira precifica outubro. Se você investe, a mensagem do rebaixamento é mais dura: o prêmio de risco eleitoral brasileiro voltou ao vocabulário dos bancos estrangeiros, e ele costuma cobrar pedágio dos dois lados, na ida com a volatilidade e na volta com a euforia. Desconfie das duas.

Entenda o jogo

Eleição brasileira sempre mexeu com preço. A diferença desta vez está na origem do risco: nas crises eleitorais anteriores, a volatilidade nascia da dúvida sobre o que o Brasil faria consigo mesmo; agora, ela nasce também do que outro país pode fazer com o Brasil. O tarifaço, o contencioso na OMC e o rebaixamento por um banco de Nova York compõem um mesmo quadro, o de uma disputa eleitoral cujo prêmio de risco é parcialmente importado. Nesse arranjo, a política monetária vira espectadora de luxo: o Banco Central pode entregar serenidade, cautela e juro real alto, mas não emite visto, não julga contencioso e não vota em outubro. O preço de tela passou a carregar uma variável que nenhuma ata alcança, e é exatamente essa variável que esta casa passou a medir todos os dias.

Fontes

Os outros lances do dia: A trégua vale para as tarifas, não para a ciência, A Indonésia aparece a leste de Taiwan, e cada lado lê um mapa, A mineradora de bitcoin vira locadora da IA por vinte anos, A hipótese Brasil: a coerção vai à OMC, e o risco vai à tela.

Toda análise do COMPASSO responde às mesmas cinco perguntas, sempre na mesma ordem: qual excedente está em disputa, quem disputa, que regras definem como se ganha, quem captura a maior fatia e onde você está nesse jogo. Conheça o método.