Arquitetura de segurança · Análise
O dia em seis regiões: o Golfo espera a decisão americana
O aeroporto de Riade segue fechado, os houthis prometem resposta rápida e dolorosa se os Estados Unidos entrarem na guerra, e o Irã oferece mediação enquanto reivindica ataques a petroleiros. Em Ormuz passam 4 navios por dia, contra 85 antes da crise. Na Europa, a esquerda francesa escolheu Raphaël Glucksmann no primeiro turno. Na África, a Etiópia fechou a embaixada na Eritreia. E a inflação americana de setembro sai na quarta.
Leituras
- Os houthis ameaçam resposta rápida e dolorosa se Washington entrar na guerra, e o Irã oferece mediação: a decisão americana define se o pacto de Meca resolve a crise sem os Estados Unidos.
- Com quatro travessias por dia em Ormuz contra 85 antes da crise, e frete de US$ 1,4 milhão por dia, o petróleo acima de US$ 105 já é custo de transporte, não só de risco.
- A Etiópia fechou a embaixada na Eritreia e expulsou dez diplomatas em 48 horas: a guerra do Tigré, reaberta este mês, caminha para um conflito direto entre dois Estados que já guerrearam por dois anos.
Atualização, 19h12. A guerra respondeu antes de Washington decidir. A coalizão liderada pela Arábia Saudita confirmou, no fim da tarde desta terça, bombardeios a instalações de petróleo no Iêmen, inclusive na região de Sanaa, a capital sob controle houthi. Chamou a ação de resposta ao ataque mais mortal em solo saudita em anos, segundo a cobertura ao vivo da CBS, a rede americana de notícias. Horas antes, os houthis tinham declarado alvo legítimo as instalações da Aramco, a petroleira estatal saudita, e mandado civis se afastar delas. A coalizão também informou ter interceptado mísseis balísticos contra Dhahran, a cidade que abriga a sede da Aramco, e contra Harad, além de drones nas regiões de Riade e do sul.
A decisão americana segue aberta. Perguntado nesta terça se os Estados Unidos entram nos bombardeios, o presidente Trump respondeu que não pode dizer, na mesma cobertura da CBS. O Departamento de Estado, o ministério das Relações Exteriores americano, passou a exigir autorização especial para funcionários do governo usarem qualquer aeroporto saudita. A aviação civil saudita prorrogou a suspensão dos voos no aeroporto de Riade até 17 de outubro. No campo diplomático, o Irã anunciou um entendimento com Omã para uma rota temporária de navegação, separada da reabertura do estreito de Ormuz.
O petróleo fechou quase parado apesar da escalada. O Brent, a referência global, caiu 96 centavos, para US$ 105,69, segundo a CNBC, a televisão americana de notícias financeiras. A expectativa de mais diesel russo, depois do alívio das restrições de exportação da Rússia na sexta, compensou o risco saudita. Para a leitura do texto, o dado novo é onde a escalada chegou: a disputa alcançou a infraestrutura da Aramco, de onde sai a renda de escassez do petróleo saudita. Se um ataque atingir produção ou embarque, o preço que hoje vem do frete e do seguro passa a vir da oferta.
O movimento que atravessou o dia foi o anúncio chinês de uma memória mais densa, que derrubou a bolsa da Coreia do Sul em 5,46%. Ele está analisado no texto de abertura desta edição. Abaixo, o que se moveu em cada região, com as versões em disputa.
Américas
O Panamá contava os danos do terremoto de magnitude 7,7 de sexta-feira, o maior da sua história recente, com epicentro na península de Azuero. O serviço geológico americano, o USGS, registrou mais de cem réplicas desde então. O primeiro balanço oficial fala em dois feridos, sem mortes confirmadas, e em danos em quase todas as estações de tratamento de água do país, além de igrejas, hotéis e estradas, segundo o Semanario Universidad, em espanhol. As aulas seguem suspensas. Nos Estados Unidos, o prêmio Nobel de economia saiu na segunda para dois americanos, pelos fundamentos microeconômicos da estabilização, segundo a NPR, a rede pública de rádio americana. O trabalho premiado fundamenta os modelos que os bancos centrais usam para calibrar o juro. O juro, aliás, é a conta da semana: a inflação ao consumidor de setembro sai na quarta e mexe no custo do dinheiro que o mundo inteiro paga, como o COMPASSO registrou em 7 de outubro.
Ásia oriental
O fato da região foi o anúncio da ChangXin e a queda de 5,46% em Seul, analisados no texto de abertura. O abalo não ficou na Coreia. Em Tóquio, o índice Nikkei caiu cerca de 2,5%, com a fabricante de equipamentos Tokyo Electron perdendo mais de 6% e o grupo de investimentos SoftBank, mais de 8%. Em Taipé, o índice da bolsa recuou 1,95%, e a TSMC, a maior fabricante de chips sob encomenda do mundo, caiu cerca de 2%. A empresa divulga nesta semana o resultado do trimestre, um dos números que o mercado espera, como o COMPASSO antecipou na segunda.
Sul e Sudeste da Ásia
A Índia reorganiza às pressas a compra de petróleo, e os números de setembro mostram o tamanho da mudança. O embarque de petróleo iraquiano para o país mais que dobrou no mês, para 4,41 milhões de toneladas. O de petróleo russo caiu 32,3%, para 5,48 milhões, segundo o levantamento marítimo publicado pela AJOT, a revista americana de logística. O motivo é o preço do caminho. O frete de um superpetroleiro na rota do Golfo para a Ásia bateu o recorde de US$ 1,4 milhão por dia, alta de 40% só na primeira semana de outubro, segundo o site especializado OilPrice. A Índia importa mais de 80% do petróleo que consome, boa parte por essa rota. Cada dólar de frete vira inflação em Délhi antes de virar lucro em qualquer lugar.
Golfo e Oriente Médio
A região mais quente do dia soma três fios da mesma crise. O primeiro é a guerra dos houthis, o grupo armado do Iêmen apoiado pelo Irã, contra os aeroportos sauditas. O aeroporto internacional de Riade segue com voos suspensos desde sábado. O ataque daquele dia matou 13 pessoas e levou a ao menos 20 mortos a conta de uma semana de ofensiva, na contagem da agência americana AP publicada pela rede CBS. A coalizão saudita interceptou na noite de segunda mais um míssil contra a capital. O grupo iemenita avisou que a resposta aos Estados Unidos será rápida e dolorosa, nas palavras dele, se Washington entrar nos bombardeios que o presidente Trump disse estudar. A morte de um americano no ataque de sábado, confirmada pela embaixada, pesa nessa decisão, como o COMPASSO registrou na segunda.
O segundo fio é a diplomacia. O chanceler iraniano, Abbas Araghchi, telefonou ao colega saudita no domingo e ofereceu mediação para um diálogo político entre Riade e o Iêmen. A oferta segue sem resposta pública saudita. O terceiro fio é o estreito de Ormuz, a saída do petróleo do Golfo, fechado ao tráfego normal há mais de sete meses. A Guarda Revolucionária iraniana reivindicou ataques a três superpetroleiros em dois dias, sem confirmação independente. O monitor de portos do Fundo Monetário Internacional contou 4 travessias no estreito em 4 de outubro, contra 85 por dia antes da crise, no registro do PortWatch, do FMI, documento primário. O petróleo Brent, a referência global, rondava US$ 105,86 nesta terça, depois de fechar perto de US$ 107 na segunda.
AS VERSÕES. O mesmo fato, contado três vezes. A imprensa ocidental descreve uma semana de ataques houthis com 20 mortos e uma decisão americana pendente, na cobertura ao vivo da CBS. Os houthis reivindicam os ataques aos aeroportos como resposta à guerra no Iêmen e avisam as companhias aéreas a evitar o espaço aéreo saudita, na cobertura do arabi21, em árabe, que reproduz o porta-voz militar do grupo. E a imprensa saudita enquadra o dia pelas condenações internacionais e pela promessa de resposta firme do governo, no registro do Asharq, em árabe, canal ligado a capital saudita.
Europa e o espaço pós-soviético
A esquerda francesa escolheu seu candidato, e a escolha diz muito sobre o estado dos partidos. Raphaël Glucksmann, eurodeputado social-democrata, venceu a prévia da esquerda moderada no primeiro turno, com 66,17% dos 120.787 votos, segundo a apuração do Public Sénat, em francês. O líder do Partido Socialista, Olivier Faure, ficou em segundo, com 14,46%. É a primeira eleição presidencial em que o partido, que governou a França por 19 dos últimos 45 anos, não terá candidato das próprias fileiras. A votação, feita pela internet, sofreu uma tentativa de ataque para derrubar a plataforma, segundo os organizadores. Na Ucrânia, a trégua de energia anunciada no domingo seguiu sem adesão verificável: o presidente ucraniano contou seis instalações de energia atacadas e 33 feridos só na segunda, como o COMPASSO acompanha desde a segunda.
África
A Etiópia rompeu na prática com a Eritreia. O governo de Adis Abeba anunciou o fechamento da própria embaixada em Asmara e deu 48 horas para dez diplomatas eritreus deixarem o país, segundo a revista americana Foreign Policy. Testemunhas relatam tropas eritreias cruzando a fronteira para dentro do Tigré, a região do norte etíope onde o exército federal retomou a capital Mekelle no início do mês. Asmara nega a incursão. Cerca de um milhão de pessoas estão deslocadas na região, e quase quatro milhões precisam de ajuda urgente. A guerra anterior entre os dois vizinhos, de 2020 a 2022, matou centenas de milhares, como o COMPASSO registrou na segunda. No leste do continente, o Quênia confirmou a primeira morte por ebola da sua história: um homem que voltou do Congo. No país de origem dele, o surto da variante Bundibugyo, que não tem vacina aprovada, soma 8.728 casos e 4.205 mortes até 6 de outubro. Os números são da Organização Mundial da Saúde, citados pela Al Jazeera, a televisão do Catar. Um segundo caso suspeito no Quênia deu negativo no exame preliminar.
Os impactos por aqui
Três canais ligam o dia ao bolso brasileiro. O petróleo acima de US$ 105, com frete recorde, encarece o diesel que o Brasil importa e o transporte de tudo o que o país vende e compra. A inflação americana de quarta mexe no juro global, que pressiona o câmbio e o custo da dívida pública brasileira. E a queda da memória coreana toca o preço futuro de celulares, computadores e data centers, que o país importa prontos ou em partes, como mostra o texto de abertura. Nos três canais, a renda em disputa se decide fora, e o Brasil entra como pagador do preço que outros fixam.
Entenda a região
A guerra entre a Arábia Saudita e os houthis começou em 2015, quando a coalizão saudita interveio no Iêmen para reverter a tomada da capital pelo grupo. O conflito produziu uma das maiores crises humanitárias do século e um aprendizado militar: drones e mísseis baratos alcançam alvos caros. Em 2019, um ataque às instalações da Aramco em Abqaiq tirou do ar metade da produção saudita por semanas. Uma trégua em 2022 esfriou a guerra sem encerrá-la. A crise atual nasceu de outra guerra, a do Irã com os Estados Unidos pelo estreito de Ormuz, iniciada neste ano, que devolveu aos houthis o papel de braço avançado de Teerã. A novidade de outubro é institucional. As potências médias da região ativaram um pacto de defesa coletiva costurado em Meca, para processar a crise sem depender do centro americano, como o COMPASSO registrou em 6 de outubro. A decisão de Washington sobre entrar ou não na guerra testa, na prática, se esse arranjo nasceu com força própria ou se segue sendo um anexo da proteção americana.
Fontes
PortWatch, do FMI (documento primário, as travessias de Ormuz) · USGS, o serviço geológico americano (documento primário, o registro do terremoto) · CBS News, com a agência AP (a semana de ataques no Golfo) · arabi21, em árabe (a versão houthi dos ataques) · Asharq, em árabe (a versão saudita) · OilPrice (o frete recorde) · AJOT (a recomposição das compras indianas) · Semanario Universidad, em espanhol (o terremoto no Panamá) · NPR (o Nobel de economia) · Public Sénat, em francês (a prévia da esquerda francesa) · Foreign Policy (a ruptura entre Etiópia e Eritreia) · Al Jazeera (o ebola no Quênia e no Congo)
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