Arquitetura de segurança · Análise
Eleição 2026: debate cancelado e duas pesquisas até quinta
A Record cancelou por incompatibilidade de agendas o debate que faria no domingo entre Lula e Flávio Bolsonaro, o primeiro do segundo turno. A semana concentra os dois dados que faltam para testar a vantagem do senador: a Quaest sai na quarta e o Datafolha na quinta. Na sexta, a bolsa fechou em recorde pela segunda semana e o dólar ficou abaixo de 5 reais, com o banco Goldman Sachs cobrando plano fiscal de quem vencer.
Leituras
- A Record cancelou o único debate marcado antes das pesquisas desta semana: com 94% dos eleitores decididos, cada encontro a menos reduz a chance de o quadro mudar até 25 de outubro.
- O mercado antecipou o resultado e passou a cobrar o preço: o banco americano Goldman Sachs vê o senador como favorito e condiciona a alta dos ativos ao plano fiscal e ao nome da Fazenda.
- Washington segue sem falar do segundo turno, e o silêncio tem preço conhecido: a tarifa de 25% sobre produtos brasileiros continua em vigor e a negociação comercial espera a urna.
Atualização, 19h15. As duas pesquisas da semana já têm registro no sistema do TSE, o Tribunal Superior Eleitoral. A Quaest de quarta está registrada sob o número BR-08729/2026, com campo de 10 a 13 de outubro e 2.154 entrevistados. O Datafolha de quinta está registrado sob o número BR-00466/2026, com campo de 13 a 15 de outubro e 2.520 entrevistados. Os registros estão no levantamento do jornal mineiro O Tempo.
A semana ganhou uma terceira pesquisa, na sexta, dia 16. O instituto MDA divulga levantamento contratado pela CNT, a Confederação Nacional do Transporte, com 2.002 entrevistas presenciais e margem de erro de 2,2 pontos, segundo a revista CartaCapital. A série incorpora cada resultado quando ele sair, com o número de registro no TSE e a conversão a votos válidos. Até lá, a ordem dos testes não muda: Quaest na quarta e Datafolha na quinta medem primeiro a faixa de 51 a 53 dos válidos projetada pela série.
Este é o texto da série Eleição 2026, que lê as movimentações da disputa, internas e externas, como um processo único e acumulado. O texto de quinta registrou as duas primeiras pesquisas feitas inteiramente depois da urna: 53 a 47 para o senador Flávio Bolsonaro na PoderData e 52 a 48 no Datafolha, em votos válidos. O fim de semana não trouxe número novo. Trouxe um cancelamento, um recorde de mercado e um calendário que concentra a semana inteira em dois dias.
Os movimentos desde quinta
O primeiro movimento foi o debate que não houve. A Record cancelou o encontro marcado para domingo às 21h, o primeiro do segundo turno. A emissora alegou incompatibilidade de agendas dos candidatos, sem dizer qual dos dois não pôde. O registro está na revista Exame e no jornal Gazeta do Povo, de linha de oposição. A campanha de Lula tinha confirmado presença; a do senador, não. O histórico das posições é conhecido. Lula disse na segunda passada que iria aos debates. O senador declarou na terça que pretende aceitar os convites, avaliando em quantos estará, segundo o site financeiro InfoMoney. O calendário restante tem três datas, no levantamento do jornal Correio Braziliense. O debate de um grupo de 11 veículos é na quinta, dia 15. O da Band é no domingo, dia 18, às 20h. E o da Globo, em 23 de outubro, dois dias antes da votação. Nenhum dos dois confirmou presença individual em nenhum deles.
O segundo movimento foi do preço dos ativos. O Ibovespa, o índice da bolsa brasileira, subiu 1,38% na sexta e fechou aos 209.066 pontos, recorde histórico. A alta da semana foi de 8,82%, no fechamento compilado pelo site Finance News. O dólar fechou a R$ 4,985, segunda sessão seguida abaixo de 5 reais. O movimento estende a reprecificação que começou na segunda depois da urna, quando o dólar caiu abaixo de 5 reais pela primeira vez, como o COMPASSO registrou. E ganhou um documento de referência. O Goldman Sachs, o banco americano de investimento, distribuiu relatório tratando o senador como favorito. O banco projeta que as próximas pesquisas mostrem vantagem de 2 a 3 pontos. Pelo cálculo do banco, as pesquisas subestimaram o senador em 4,3 pontos no primeiro turno. O relatório vê espaço para o dólar entre R$ 4,50 e R$ 4,80 nos próximos meses. O registro está no InfoMoney e na revista IstoÉ Dinheiro. A ressalva do próprio banco: a eleição segue aberta, e debates, mobilização e a abstenção de 21,1% do primeiro turno podem decidir.
O terceiro movimento foi de rua, em escala contida. No domingo, Lula fez ato na Avenida Paulista ao meio-dia, com o ministro Guilherme Boulos, da Secretaria-Geral da Presidência. O senador cumpriu agenda com autoridades locais em São Paulo, segundo o site Metrópoles, de Brasília. Na semana, Lula retomou atos em Ceilândia, no Distrito Federal. O senador se reuniu com lideranças no Rio de Janeiro, segundo o jornal mineiro O Tempo. O quarto movimento é o calendário de dados. A Quaest divulga na quarta, dia 14, sua primeira pesquisa do segundo turno. O campo vai de 10 a 13 de outubro, com 2.154 entrevistados. O Datafolha divulga na quinta, dia 15, com campo de 13 a 15 de outubro e 2.520 entrevistados. As duas têm margem de 2 pontos, no levantamento da revista CartaCapital. Os registros saem no sistema de pesquisas do Tribunal Superior Eleitoral, documento primário. Lá estão a PoderData BR-08134/2026 e o Datafolha BR-02949/2026 da semana passada.
O que muda na leitura da corrida
A estimativa central da série não muda, porque não entrou número novo. A conta em camadas montada na segunda depois da urna projetava 51 a 53 dos válidos para o senador. Ela partia do resultado oficial, de 47,03% a 45,16%, e somava duas hipóteses. A primeira: a transferência dos eleitores do centro, estimada em 1 a 2 pontos. A segunda: o viés de subestimação do campo da direita medido em 2022. As duas pesquisas pós-urna, de 53 e 52, caíram dentro da faixa, no seu teto. A hipótese segue sendo essa, e é uma leitura, não um fato: o teste dela são os números de quarta e quinta.
O cancelamento da Record mexe na variável que restava. Pelo Datafolha da semana passada, 94% dos entrevistados se dizem totalmente decididos. A migração dos eleitores eliminados favorece o senador por 46% a 32%. Num eleitorado assim, debate é dos poucos eventos capazes de mover ponto. Menos um debate significa menos uma chance de reversão para quem está atrás. A decisão se desloca para mobilização e comparecimento em 25 de outubro. O precedente de 2022, descrito no texto da véspera do primeiro turno, mostra um segundo turno parado por um mês. Foram 53 a 47 em quatro pesquisas seguidas, e 52 a 48 na urna. Se o padrão se repetir, os números desta semana valem mais que os da última, porque medem o quadro já acomodado.
Os interesses por trás dos movimentos
O fator que mais se moveu na semana foi o capital, e ele se moveu antes do voto. A alta de 8,82% da bolsa numa semana e o dólar abaixo de 5 reais são apropriação antecipada. Quem tem ativo financeiro capturou renda com a expectativa de vitória do senador, antes de qualquer voto do segundo turno. O relatório do Goldman diz o que o capital cobra em troca: plano fiscal detalhado e nome para a Fazenda, de qualquer vencedor. O trabalho não aparece na disputa desta semana. Nenhuma das campanhas apresentou proposta nova de renda ou emprego desde a urna. A agenda pública dos dois foi de adesões e atos. O Estado aparece como objeto, não como agente: é o orçamento dele que o plano fiscal cobrado vai cortar ou preservar. Na leitura da série, essa assimetria é o dado estrutural da campanha. A disputa corre sobre qual candidato dá mais garantia ao credor, e não sobre o uso do excedente que o país produz.
A pressão externa segue no padrão que a série acompanha desde o especial Depois de Caracas. Washington não fez declaração pública sobre o segundo turno desde a urna. O silêncio convive com instrumentos ativos. A tarifa de 25% sobre produtos brasileiros está em vigor desde 22 de julho. E a negociação comercial que o governo americano condicionou a temas eleitorais e judiciais foi rejeitada pelo governo brasileiro em setembro. A vitória do senador é lida fora do país como chance de destravar essa conta. É assim que o jornal argentino El Economista, em espanhol, descreve a disputa, com Lula buscando reverter uma desvantagem dentro da margem. A eleição legislativa americana de 3 de novembro, nove dias depois da brasileira, mantém a Casa Branca ocupada com o próprio calendário.
O que observar até 25 de outubro
- Quarta, 14. Pesquisa Quaest, a primeira do instituto no segundo turno. Se vier entre 52 e 53 para o senador, confirma a faixa da série; abaixo de 51, reabre a conta.
- Quinta, 15. Pesquisa Datafolha e o debate do grupo de 11 veículos, ainda sem confirmação dos candidatos.
- Domingo, 18. Debate da Band, às 20h, também sem confirmações.
- Sexta, 23. Debate da Globo, o último antes da votação.
- Domingo, 25. Votação do segundo turno.
Fontes
TSE, sistema de registro de pesquisas (documento primário) · Exame (o cancelamento da Record) · Gazeta do Povo (a versão da emissora) · CartaCapital (o calendário das pesquisas) · Correio Braziliense (o calendário dos debates) · InfoMoney (o relatório do Goldman Sachs) · IstoÉ Dinheiro (a cobrança do plano fiscal) · Finance News (o fechamento de sexta) · Metrópoles (as agendas de domingo) · O Tempo (a semana de campanha) · El Economista, em espanhol (a disputa vista de Buenos Aires)
Os outros textos do dia: A semana que começa · Leitura cruzada · Crise Climática
Toda análise do COMPASSO responde às mesmas cinco perguntas, sempre na mesma ordem: qual excedente está em disputa, quem disputa, que regras definem como se ganha, quem captura a maior fatia e onde você está nesse jogo. Conheça o método.